Por Vanessa D’Amaro C. das Neves*
Como qualquer grupo estereotípico, as intelectuais são extremamente mal pré conceituadas. Sorrateiramente, essas moças estão sempre tentando do fugir do senso comum e dos estigmas impostos a elas pelas mentes não-criativas. Nem sempre elas têm sucesso.
A verdade é que as intelectuais têm todas as formas, tamanhos, cores e tipos de cabelo. Elas também não se restringem a um único tipo de lentes corretivas. Elas podem ser míopes, hipermetropes ou astigmáticas. Elas podem usar lentes gelatinosas, lentes de policarbonato ou lentes de acrílico. Suas armações podem ser de acetato ou até de aço inoxidável. Algumas se vestem de maneira comportada. Outras não. Algumas usam saltos baixos. Outras adoram ganhar 10 centímetros de altura. Elas são diferentes e heterogêneas. Elas são muito inteligentes.
As intelectuais contrariam as mentes não criativas e não se encontram somente nas bibliotecas da Cidade Universitária, no Espaço Unibanco, no HSBC Belas Artes ou nas exposições de arte contemporânea no Ibirapuera. Essas moças, munidas de intelecto admirável, freqüentam todos os cantos da cidade de São Paulo. Elas estão na Avenida São João, na Linha Vermelha do Metrô, no Parque da Independência, nas baladas da Vila Olímpia e até no Pacaembu. Algumas, inclusive, freqüentam o Centro de Práticas Esportivas da Universidade de São Paulo. Elas vão à ginástica.
A ginástica não é o habitat natural de muitas intelectuais. Uma minoria delas consegue ter um invejável sucesso, dividindo seu tempo entre as leituras de Adorno e às aulas de Step. Outras não são tão bem sucedidas. É por isso que no início de toda aula de ginástica um observador atento percebe a concentração e o desconforto de algumas dessas moças durante o aquecimento inicial.
Inspira. Muuuummmhhhhh. Expira. Ahhhhnnnn. Ombros para cima. Ombros para baixo. Soltando o pescoço. Palma para um lado. Chute para outro. Mais rápido. 5, 6, 7, 8… vai… Agora puxando com os braços. Coordena o braço com a perna. MAIS RÁPIDO! Concentração. Foco. Braço para um lado. Chute para outro. Ah, eu devia estar na biblioteca. Inspira. Muuuuummmmhhh. Expira. Ahhhhnnn. Podem subir no step. Passo básico. Até agora está fácil. 5, 6, 7, 8…. e, 1, 2, 3, 4….
É assim que as intelectuais começam a aula de ginástica. Desejando ter ficado na biblioteca, mas perfeitamente conscientes que não queriam estar em outro lugar. As intelectuais são inteligentes e sabem que uma boa aula de aeróbica faz bem para o corpo e para mente. O “5, 6, 7, 8…” é um componente fundamental da rotina semanal. Por isso, elas não se importam de deixar a leitura de Nieztsche ou as aulas de estatísticas de lado.
Agora chuta. Faltam só oito. 8,7, 6, 5, 4…. E as intelectuais formam uma coreografia matematicamente perfeita com direito a trilha sonora dançante. Com força. As pisadas se transformam numa marcada percussão. Os tênis esportivos são como baterias em febre. As intelectuais estão em profunda concentração. Elas já começam a sentir os corações acelerando. O sangue quente começa a fluir pelas artérias e as veias se movimentam mais rápido do que um cometa. Tum. Tum. Tum. Tum. Acelera… VAI!!!
Inspira. Muuuuummmmhhhhh. Expira. Ahhhhhhnnnnnn.
E o passo complica. Agora além de chutar, bater palmas e fazer o joelho triplo, as intelectuais têm que mudar o lado do step. A concentração e o foco são imprescindíveis. A intelectual desatenta pode errar bruscamente a pisada e atrapalhar toda a coreografia matematicamente perfeita construída pela professora-deusa. Não se pode pensar Foucault nesse momento. Esqueça o filme do Fellini. Esqueça as aulas de cálculo numérico. Foco. Concentração.
5, 6, 7, 8…. VAI!!!!! Direita. Esquerda. Chutou. Palmas. Joelho Triplo. E, 1, 2, 3, 4… Vergonha. Fracasso. Decepção. Algumas intelectuais erraram o passo e elas sabem o porquê. O corpo está ali presente, mas a mente está na aula de Teoria da Comunicação ou no trabalho História Medieval que deve ser entregue na segunda-feira. As intelectuais destruíram a coreografia matematicamente perfeita da professora-deusa. Elas abaixam os olhos. Vergonha. Foco. Concentração.
Inspira. Muuuuummmmhhhhh. Expira. Ahhhhhhnnnnnn.
1, 2, 3 e… UUUUUUU-HUUUUUU!!! O passo foi acertado. As intelectuais descoordenadas voltaram para a coreografia matematicamente perfeita. Elas levantam os olhos e contém o sorriso maroto de vitória. 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1…. e 1, 2, 3… Passo básico. Chuta. Esquerda. Direita. Joelho Triplo. Passo básico em L. Viradinha. Escorrega. 1, 2, 3, 4… e… DIREITA. VAAAAAI! Esquerda. Chuta. Joelho Triplo. Passo básico em L. VAAAAAI! O sangue quente flui ainda mais rápido. O intervalo dos batimentos encurta. TUM-TUMTUM-TUM-TUMTUM. A corrente sanguínea é um cometa dentro das artérias. As veias já esguicham sangue. Os músculos tremem. Os joelhos doem. Os braços dormem. O suor escorre pela espinha. E a corrente sanguínea não páraaaaaa…. Dor. Exaustão. Arrependimento. Biblioteca. Cinema. Godard. Francês. Lingüística. Quinta de manhã. O sangue esquenta. A corrente sanguínea é um meTeORO!!!! AAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!
Inspira. MUUUNHH. Expira. AHHHNN. Inspira. MUUUNHH. Expira. AHHHNN. Inspira. MUUUNHH. Expira. AHHHNN. Tum. Tum-tum. Tum. Tum-tum. MUUUNHH. AHHHNN.
Endorfina. ENDOrfina. ENDORFINAAAAAA!!!!!!
Eu amo a aula de STEP! 8, 7, 6, 5, 4… Passo Básico. Força. Chuta. Coragem. Mais forte. VAAAAAAaaaI! Direita. Esquerda. Viradinha. Passo básico em L. Joelho Triplo. Escorrega. E 1, 2, 3, 4… Faltam 12. Nãaaao! O sangue esquenta. Eu quero mais. Corrente sanguínea ainda é um meteoro. 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1… Nãaao! Eu tenho TODA a energia! Desacelera! Não Pára! Eu consigo. Foco. Concentração. Nãaao! Respira. Muuuuummmmhhhhh. Inspira. Ahhhhhhnnnnnn. Desce do step. Água. Água. Água. Água.
Contando os batimementos. Tum. Tum-tum. Tum. Tum-tum. Água. Água-água. Água. Água-água. Água. Água-água. Parou.
Inspira. Muuuuummmmhhhhh. Solte o ar. Ahhhhhhnnnnnn. Ombro para cima. Ombro para baixo. Solte o ar. Virando o pescoço. Solto o tronco. Lá embaixo. Levanta. É isso, meninas. Boa semana.
E as intelectuais, ruborizadas pela aceleração meteórica da pressão sanguínea, procuram a garrafa d’água. Seiscentos mililitros depois, elas encontram o caminho de casa. Ainda sob efeito da endorfina, elas sorriem com as dores musculares e se questionam se à noite devem ler Guimarães para a prova de sexta ou se será mais prazeroso alugar um filme do Truffaut… Partem. As intelectuais já foram à ginástica.
* A ideia para esse texto surgiu pouco antes da liberação da Endorfina e me custou diversos erros na coreografia matematicamente perfeita da professora-deusa. Tento me redimir com a homenagem.